Pedro Barateiro, Matthew Buckingham, Eduardo Guerra, Sandro Ferreira, Lúcia Leitão, Pedro Neves Marques, Micael Nussbaumer, The Otolith Group, André Romão, Manuel Santos Maia e Mona Vatamanu & Florin Tudor

Constructing History: the future life of the past

15.09.2010–15.10.2010

Perhaps history is not about the past. At least, not primarily. Perhaps it is first of all about the future. This may be exactly what makes history political. For whoever owns history owns the future.
Jan Verwoert(i)

 

A representação histórica aparenta ter tido um papel meramente periférico na prática artística contemporânea. No entanto, já nos anos sessenta, um número crescente de artistas desenvolveu um interesse específico por material de arquivo, imagens dos media e found footage. Estas estratégias de apropriação, ainda que pudessem ser interpretadas como um interesse renovado na questão da constituição do fenómeno histórico, eram, contudo, mais o reflexo do desejo dos artistas em explorar a opacidade das imagens de arquivo, e a sua relação (estatuto) com a cultura que as produzia, disseminava e consumia, do que um real interesse na exploração do passado.

Mais recentemente, o foco de interesse neste tipo de materiais de arquivo, apelidado já como impulso(ii) ou febre(iii) arquivista, deslocou-se da simples apropriação e reutilização de imagens pré-existentes para um questionamento fundamental dos mecanismos envolvidos na criação dessas mesmas imagens, a sua ligação com noções de memória colectiva e a assunção da influência dos media na construção de uma visão unidimensional, espectacular e comercial do passado.

O projecto Constructing History pretende assim averiguar como a prática artística contemporânea lida com, e explora, a representação de episódios históricos, recorrendo não só a conceitos como os de memória colectiva, simbologia e identidade nacionais, mas também a noções de artefacto, documento, arquivo, monumento e património, e através do desenvolvimento e apropriação de estratégias de re-enactment, reconstrução, recuperação, narração e ficcionalização de episódios históricos específicos. Este modo retrospectivo da historiografia tem permitido aos artistas desenvolver trabalho cujo intuito principal consiste em recordar ou desenvolver uma reflexão sobre o acto de recordar (e, consequentemente, de esquecer).

Constructing History pretende relacionar o crescente interesse pela actividade historiográfica enquanto ferramenta de desenvolvimento de uma prática artística (a noção do artista como historiador(iv) ou, mais especificamente, como historiógrafo(v) ) com uma posição que pode ser definida como essencialmente política (no sentido mais lato) e que se caracteriza pela crítica de uma certa amnésia neo-liberal que privilegia o marketing da novidade, a busca e consumo do sempre novo em detrimento do que é passado e obsoleto. Esta crítica pode ser identificada com a crescente ideia da crise da História(vi), tanto como disciplina e modo de produção de conhecimento, e talvez mais relevante, como intrinsecamente relacionada com a gradual diminuição da nossa capacidade de imaginar futuros alternativos, ou formas diferentes de pensar o mundo. Desse ponto de vista, o interesse dos artistas no fenómeno histórico pode ser entendido como a crítica explícita de uma cultura contemporânea de esquecimento acelerado e a consequente recusa, ou impossibilidade de pensar o mundo de forma diferente, de criar uma alternativa às condições do capitalismo global.

O Convento de Cristo, monumento nacional e património classificado da UNESCO, construído por Gualdim Pais no séc XII como castelo da Ordem dos Templários e transformado arquitectónica, funcional e simbolicamente ao longo dos oito séculos da sua existência, e tendo testemunhado episódios como a reconquista cristã, as descobertas, a união ibérica e as invasões napoleónicas, apresenta-se não só como o local, mas sobretudo como o contexto ideal para abordar, tanto de um ponto de vista artístico como curatorial, e de forma tanto crítica como especulativa, o que pode constituir actualmente o fenómeno histórico, a sua dimensão de construção social e, portanto, eminentemente colectiva e subjectiva, bem como o seu potencial crítico.

 

(i) Jan Verwoert, “On Future Histories – And the Generational Contract with the No Longer and Not Yet Living And the Pan-Demonium of Irreverent Styles of Nostalgia”, Questioning History – Imagining the Past in Contemporary Art (Rotterdam, NAI Publishers, 2008), 90-98.
(ii) Hal Foster, “An Archival Impulse”, October n.º 110 (Cambridge, Massachussets, The MIT Press, 2004), 3-22.
(iii) Okwui Enwezor, “Archive Fever: Photography Between History and the Monument”, Archive Fever: Uses of the Document in Contemporary Art (New York, International Center of Photography & Göttingen, Steidl, 2008), 11-51.
(iv) Mark Godfrey, “The Artist as Historian”, October n.º 120 (Cambridge, Massachussets, The MIT Press, 2007), 141-172.
(v) Dieter Roelstrate, “The Way of the Shovel: On the Archeological Imaginary in Art”, e-flux journal #4 (Nova Iorque, e-flux, 2009).
(vi) Jan Verwoert, “The Crisis of History”, Cork Caucus: on art, possibility & democracy (Frankfurt, Revolver, 2006), 332-338.