Sancho Silva

Effigiae

22.09.2012–22.12.2012

A Kunsthalle Lissabon apresenta Effigiae, a mais recente exposição individual de Sancho Silva e, apesar do seu já longo percurso expositivo, a sua primeira individual em Lisboa. Partindo da pele de uma osga seca, da carapaça de quitina de uma abelha em rotação e de uma reprodução em gesso de um peixe em suspensão, será edificada uma encenação, com sombras e projeções, em torno da teoria materialista das imagens de Lucrécio.

 

"Agora entremos no attinente objecto
A's materias que expuz. Os simulacros,
Entes que embrulham, qual membrana, os corpos,
Emanação da superfície delles,
Sem algum fito pelo ares voam.
Sao elles em quem ver nos persuadimos
Formas terriveis, lemures exsangues,
Que á mente esperta nos dardejam sustos,
E a paz do somno horrendos nos desmancham,
Em afflictiva languidez nos pondo.
Por tanto, não creiamos que entre os vivos
Venham revoar as sombras dos que morrem,
Desamparando do Acheronte as margens;
Nem que, extincta a juncção do corpo e da alma,
Na origem sua cada qual cahindo,
Porções algumas nos reserve a morte.

Concluo pois que cada corpo sempre
Lançando está da superficie sua
Tenues emanações, que o nome devem
Ter de membrana ou cortical embrulho;
Porque no aspecto são iguaes aos corpos
Donde se elevam a fender os ares.

De facil convicção o exposto julgo.
Ha muitos corpos que de si expellem
Emanações que nos sentidos cahem:
Umas, raiando ás soltas, se dispersam,
Qual da chamma o calor, da lenha o fumo:
Outras, mais densas, um tecido formam,
Qual da cigarra, na estação ardente,
A já usada tunica despida;
Qual a membrana que ao nascer despegam
Do tenro corpo os tremulos novilhos;

Qual a pelle que as lubricas serpentes
Despem e deixam, como vemos, soltas
Pender nas sarças ao querer dos ventos.
Provam successos taes que se desligam
Tenues porções das superficies todas:
A mesma causa, que afastou as densas,
Desprende as tenues bem que aos olhos fujam;
Visto existirem pela flor dos corpos
Moleculas sem numero invisiveis
Que, o mesmo teor guardando e anciã figura,
Podem soltar-se tanto mais velozes
Quanto menos obstaculos encontram,
Tenues e postas no exterior dos corpos.

(...)

Não crê porém que os simulacros todos,
Que vagam no ar, dos entes se desligam:
Tambem os ha que de per si se formam
No espaço que atmosphera se nomeia:
Tomam flguras mil nessas alturas,
E nunca cessam de mudar-se em outras.
Aggregarem-se assim vernos as nuvens
Crescendo mais e mais nos horizontes,
Cobrir a vastidão dos ceos serena
Mansamente movendo-se nos ares:
Antes do sol nascer, depois de occulto,
Ora parece que gigantes voam,
E que espalham ao largo horridas trevas;
Ora altos montes e arrancada rochas,
Já torva fera que arrebanha as nuvens."

Lucrécio, A Natureza das Coisas, Livro 4
(tradução de António José de Lima Leitão)

 

Sancho Silva nasceu em Lisboa em 1973. Licenciou-se em Matemática Pura (Trinity College, Dublin) e obteve o grau de Mestre em Filosofia da Linguagem e da Consciência (Universidade de Lisboa). A sua formação artística inclui o Curso Avançado em Artes Plásticas (Ar.Co, Lisboa), o Mestrado em Artes Plásticas (Pratt Institute, Nova Iorque) e o Whitney Independent Study Program (Nova Iorque). Das suas exposições individuais destacam-se: Objects, Pinksummer, Génova (2009); Dolle Mol, Objectif Exhibitions, Antuérpia (2008); Olho Ciclópico: Cairo, Pinksummer, Génova (2007) ; Olho Ciclópico: Berlim, Künstlerhaus Bethanien, Berlim (2006); Orange Works, em colaboração com John Hawke, Centro Cultural de Belém, Lisboa (2005); Modulators, Steuben West Gallery, Pratt Institute, Brooklyn (2004); Sub-urb, Parque de Serralves, Porto (2003); Shortcut, Inkijk, SKOR, Amesterdão (2002). Participou em inúmeras colectivas, destacando-se: Slow Movement or: Half and Whole, Kunsthalle Bern, Berna (2009); El Medio es el Museo, MARCO, Vigo (2008); Love at First Site, Futura Projects, Praga (2008); Shelter, Hiroshima City Museum of Contemporary Art, Hiroshima (2008); Portugal Agora, Musée d’Art Moderne Grand-Duc Jean, Luxemburgo (2007); Où? Scènes du Sud : Espagne, Italie, Portugal, Carré d'Art - Musée d'Art Contemporain de Nîmes, Nîmes, França (2007); Prémio União Latina, Culturgest, Lisboa, Portugal (2007); Sete Artistas ao Décimo Mês, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa (2003) e Manifesta 4, Frankensteinerhof, Frankfurt (2002).

 

A Kunsthalle Lissabon e a exposição Effigiae são generosamente apoiadas pela Teixeira de Freitas, Rodrigues e Associados.