Conversa entre Joana Bastos, João Mourão e Luís Silva, a propósito da exposição Ask me, realizada na Kunsthalle Lissabon, em Novembro de 2009.
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Começando pelo início, pelo título do teu projecto, o que queres que te perguntemos?
Uma coisa é a inevitabilidade dessa questão surgir no espaço expositivo; aqui parece-me adequado responder a uma pergunta que vocês, conhecedores e curadores do projecto, achem pertinente fazer. Se insistirem, respondo: o que vos apetecer.
Não insistimos. A pergunta anterior pretendia sobretudo sinalizar a existência, na tua escolha do título (que de alguma forma sintetiza o projecto que vais desenvolver no contexto de uma exposição individual), de uma certa expectativa, ou uma intenção, de te colocares numa posição em que terás que responder e expor aos visitantes da Kunsthalle Lissabon. Nesse sentido, a questão anterior pretendia ser, sobretudo, uma provocação: o que esperas que os visitantes te perguntem, e de que maneira é que o estabelecimento de um tal diálogo se pode constituir como uma prática artística e, mais especificamente, como a tua prática artística?
Ao espectador é sugerida uma participação activada pelo título. Na aproximação, e partindo do pressuposto de que as perguntas são adequadas à inquietação do que se percepciona, não existem perguntas certas ou erradas e a conversa será conduzida em direcção a um entendimento conceptual e formal da peça. Esse discurso é simultaneamente informativo (eu enquanto assistente de exposição, também conhecido como um “ask me”) e performativo (eu enquanto performer – performer que se incorpora num assistente de exposição), e accionado pela participação do espectador. Comunicação verbal como prática artística tens, por exemplo, o trabalho que Ian Wilson desenvolveu depois de 1968; em Ask me, o discurso é forma, bem como é forma a apropriação dos elementos físicos inerentes ao espaço da Kunsthalle Lissabon: uma cadeira, uma mesa, um computador, um assistente de exposição.
Mas não é uma contradição constituíres-te como assistente de exposição quando não existe exposição para assistires? O contexto que justifica a necessidade de um “ask me” é esse mesmo, o da sua existência como descodificador (ou mediador, se preferires) de um discurso artístico e/ou curatorial pré-existente. Neste caso concreto, e ainda que entendamos o teu argumento do discurso como forma, qual é a justificação para a existência de tal função na Kunsthalle Lissabon?
A figura “assistente de exposição” é uma necessidade logística da Kunsthalle Lissabon. Eu antecipei-me a essa necessidade (inversão cronológica), e assumi esses elementos como objecto de exposição que ocupam o espaço.
Apresentando o trabalho de um assistente de exposição como performance, represento indivíduos (tantas vezes artistas) que sobrevivem na sociedade do spectacle (tantas vezes espectáculo da arte). Perante o público, age, veste-se, comunica, da forma mais real possível: a personificação de um ready-made, se quiserem. A única coisa que o difere de um trabalhador é a sua consciência e objectivo como performer, o modo como é contextualizado e dado a ver. Este trabalhador/artista desempenhou, por exemplo, no caso da Frieze Art Fair 2009, em Hostess, um papel participativo de um sistema (enquanto assistente do projecto de outros artistas). Aqui, em Ask me, apresenta uma participação intrínseca: assiste-se a si próprio. O seu modus operandi é ambíguo, e é aí que reside o interesse desta apresentação.
Mas não te parece que esbarras num problema quase de ordem ontológica? Se és uma Ask me, uma assistente de exposição, assistes a essa exposição, e não a ti própria. Não é possível ser-se sujeito e objecto ao mesmo tempo; existe quase uma espécie de impossibilidade ontológica que impede que te constituas simultaneamente como a obra exposta e a pessoa que zela por essa obra. Ainda que te definas como assistente de exposições, invariavelmente irás tornar-te a exposição ela própria (tu como performer). Não havendo mais nada na Kunsthalle Lissabon que não tu, a tua intenção é automaticamente reificada e passas de performer que curto-circuita uma serie de noções, convenções e ideologias sobre arte, trabalho e capital a objecto exposto, como numa espécie de galeria de curiosidades ou jardim zoológico. Não te parece que a depuração extrema que pretendes, inviabiliza ou mina, de alguma forma, o potencial do discurso que queres articular?
Reificada está, desde há muito tempo, a condição humana. E com ela, um assistente de exposição. Dá-se a ver como performance porque exactamente o sujeito é objecto. Mecânico, objectivo e quantitativo, co-habita num jardim zoológico artístico, e até instituído.
Com a depuração, em Ask me, a palhaçada é talvez menor: põe-se a cru a “coisificação”, o seu cargo e funcionalidades, despido de artifícios ou anestesiadas consciências. O quase nonsense (reciprocidade de se auto-assistir) aguça a consciência, e este é o objectivo da peça. Pegando no que disseram quanto à possibilidade de cair formalmente num “espectáculo” de abrir e fechar a porta, espectacular é, aí sim, cobrir ou não mostrar essa realidade.
Esse acto de por a cru, ou expor algo que insiste em manter-se invisível, parece ser algo central na tua prática. A tua participação em projectos como Job Interviews (2009) e Employability (2008), assim como as tuas peças survive to perform to survive to perform to survive and so on (2008), had to go to work (2008), slippery floor (when wet) (2008), non-commercial artist (2008), entre outras, parecem apontar para um posicionamento crítico relativamente às relações existentes entre prática artística, trabalho e capital. O que é que te interessa nesta trilogia arte trabalho e capital, se a pudermos conceptualizar como tal?
Acima de tudo interessa-me trabalhar com a realidade (embora questionando se consegue, um artista, tal proeza). Ao agir na fronteira entre arte e realidade, procuro uma representação o menos teatral possível, daí a imperceptibilidade ou secura visual. Trabalhar para pagar estudos e produções líricas (da arte pela arte e suas ideologias) fez-me reposicionar e achar ainda e tão pertinentes peças como Do you Eat? Where does the money come from? (…) (1970), um flyer de Gustav Metzger. Os meus trabalhos andam à volta dessa consciência/ responsabilidade. Tudo com uma boa dose de ironia ou divertimento, não vá a arte não servir para nada.
Mas que realidade? A do teu dia-a-dia quotidiano, pessoal, ou do sistema profissional onde te inseres? A realidade é permissiva, diferenciada, se quisermos... em certa instância, pessoal; ao agires na fronteira que defines anteriormente (arte e realidade), e ao assumires uma posição consciente e ética, estás a considerar-te uma artista política? Qual a mensagem, inerente a essas acções, que pretendes transmitir?
Umas vezes mais explícitas que outras, a obra de arte é autobiográfica. Trata de realidades pessoais que são, sempre por vontade (daí a noção de responsabilidade), expostas publicamente. Se, em termos sociológicos, personal is political, a arte tem, a posteriori (porque no campo das possibilidades e não das necessidades), premissas políticas: mostra-se e comunica opiniões.
Tento – sem grandes dramatismos ou slogans publicitários (disso precisam os políticos), com verdades subjectivas, e em tom de manifesto poético - despir máscaras e preconceitos, da vida e da arte. Pôr a nu para melhor contemplar.
É interessante que utilizes o despir como metáfora... Na Kunsthalle Lissabon estamos perante uma ficção que vestes e utilizas para comunicar com o público, ou é a Joana Bastos real que está a trabalhar/agir naquele espaço? Voltando ao acto de vestir/despir, o que é que te interessa pôr a nu? Ou mais concretamente, que máscaras e preconceitos da vida e da arte, como referiste anteriormente, pretendes despir em Ask me?
A condição é a que referi acima: consegue um artista trabalhar com a realidade? Parece-me que apenas perto dela, porque uma produção artística, umas vezes mais directa, outras vezes menos, é ficção.
É híbrido o meu lugar de Ask me, e é com isso que o visitante se depara na Kunsthalle Lissabon. “A incerteza é”, segundo Baudrillard, “o princípio orientador do objecto do pensamento”. “O objecto de pensamento é a noção de que o sujeito e o mundo existem numa relação recíproca. O jogo de reciprocidade entre sujeito e objecto significa que não podemos dizer quem pensa quem”, bem como em Ask me não é descodificado, nem para mim, nem para o espectador, quando é que sou sujeito ou objecto, assistente da obra ou obra, factual ou fictícia.
Uma coisa é ser-se (como também já fui) assistente de exposição, que sobrevive como mediador/vigilante, sem ter pretensões artísticas de ser objecto de discussão. Outra coisa é “saltar da condição quotidiana”, como diz Heidegger, “para atingir o verdadeiro eu”. Seja por outras legítimas vias, vejo também no fazer artístico possibilidades que proporcionam esse salto. Mesmo que ainda se tenha que ser, embora com outra consciência e objectivo, o tal sobrevivente/mediador/vigilante.
Interessa-me a nudez desmascarada de certezas, que contempla contradições, e que age no instante da vida humana. Interessam-me os primeiros trabalhos de Cindy Sherman, Play of Selves (1975). Seduzo-me pelas empregadas de limpeza de uma Gulbenkian, não do que cuidam mas como o cuidam. Seduzo-me pela possibilidade de criar vida (Quarto de Hóspedes (2009)) dentro de um Centro Cultural. Seduzo-me pelos runners do Martin Creed (Work No. 850 (2008)) e pela rapidez com que vêem, e se dão a ver, num Museu. Seduzo-me pela forma com que Andrea Fraser vende, e não o que vende (Untitled (2003)). Seduzo-me pelas sucessivas filas de Roman Ondák, pela espera e não pelo que esperam. Seduz-me a visibilidade da ausência de Robert Barry. Seduzo-me pela discursividade do artista Ian Wilson, dado como mais interessante do que a obra a que se refere...
Seduzo-me pelos assistentes de exposição e não pelas obras em exposição.
Falas de sedução, de como as empregadas de limpeza da Fundação Calouste Gulbenkian e, neste caso concreto, os assistentes de exposição te seduzem; mas falas também de como te deixas seduzir pelo trabalho de certos artistas... ser uma Ask me é uma estratégia de sedução da tua parte? E em caso afirmativo, sendo o acto de seduzir um jogo dialéctico, quem é o objecto de tal estratégia?
Existem ligações. Embora representações sejam sempre representações, a obra artística contempla seduções. Manobras de atrair (o outro) para comunicar.
A estratégia consiste mais em encontrar formulas que reflictam sobre a vida do agora, mais precisamente, relacionadas com a crise e formas de sobrevivência.
No teu site informas os visitantes que te encontras actualmente à procura de emprego. Ainda é essa a situação? Que tipo de emprego procuras?
Continuo à procura de emprego, embora com a condicionante deste “part time” – naturalmente não remunerado - na Kunsthalle Lissabon (um projecto independente, auto-sustentado, sem fins lucrativos), e outras condicionantes já programadas.
A transacção comercial da performance também é complexa, e, nas artes plásticas, relativamente recente. A acção performativa – principalmente se é realizada pelo próprio artista, não é custo de produção; um fee só é pago quando existe tanto orçamento como respeito (é necessário que haja os dois), ou quando tal é imposto pelo artista. Quanto à última hipótese, sem percurso artístico não é algo que se possa impor; e o futuro desta condição é o mercado a funcionar.
Mas não há vitimizações... todos nós fazemos esforços, de uma maneira ou outra vamos realizando-nos, trabalhar é bom, saber de onde vem o dinheiro também e desmistificar o artista como génio, ainda melhor.
Next Money Income? (2007), Business card (2007), ou agora no meu website Currently looking for a Job (2009), chegam a ser tentativas de promoção profissional. Quando a necessidade aperta, aperta o desespero. Se o desespero for bem conduzido, chega a ser interessante e até divertido.
Procuro um emprego o mais distante possível da arte (embora a minha formação profissional seja essa), mas acabo por escolher sobretudo empregos que mais rapidamente respondem à urgência da minha situação (ou, embora minoritariamente, à representação de uma urgência).
