Cisco Merel: La Chantin
A Kunsthalle Lissabon tem o prazer de apresentar "La Chantin", a primeira exposição individual em Portugal do artista panamenho Cisco Merel. Com inauguração a 18 de março e concebido especificamente para o espaço da KL, este projeto explora a casa não como um objeto acabado, mas antes como um sistema aberto, coletivo e em constante devir.
O título da exposição, "La Chantin", recupera a gíria panamenha para designar a casa ou o lar. Contudo, a sua origem revela uma história de resiliência e movimento: a palavra deriva do inglês shanty. O termo viajou com a diáspora afro-antilhana durante a construção do Canal do Panamá, dando nome a uma arquitetura de urgência e resistência: casas de madeira, elevadas do chão para lidar com a humidade dos trópicos e, acima de tudo, desenhadas para serem amovíveis. Estas estruturas eram frequentemente desmontadas e transportadas para novos terrenos, crescendo e transformando-se conforme as necessidades das famílias e das comunidades.
Nesta exposição, Cisco Merel recupera estas formas arquitetónicas populares para refletir sobre como o lar se constrói e se reconstitui em contextos de migração e desarraigo. Ao libertar a arquitetura da sua imobilidade tradicional, a instalação apresentada — estruturas elevadas, ventiladas e permeáveis — incorpora rodas e elementos móveis, convertendo a arquitetura num corpo em trânsito. Ao contrário de uma exposição estática, "La Chantin" convida o público a participar ativando as obras por meio do movimento. Este gesto translada a experiência migratória para o plano físico: a casa deixa de ser um lugar fixo para se converter num território transformável, constantemente negociado por aqueles que o habitam. Cada deslocamento gerado pela ação coletiva produz uma nova composição espacial e uma reinterpretação da memória.
A prática de Merel, profundamente influenciada pelas suas raízes sino-afro-panamianas, cruza a estética da arte popular com rigorosos processos industriais. Um elemento central nesta transposição é o uso da madeira sobreposta, uma técnica construtiva em que as tábuas são dispostas horizontalmente para que a água das chuvas tropicais escorra sem penetrar na estrutura. Esta técnica transforma a casa numa pele protetora e flexível. Sobre esta superfície, as cores vivas e contrastantes surgem não apenas como adorno, mas como uma afirmação de vitalidade e dignidade. Estas tonalidades vibrantes funcionam como um sinal de lucidez e modéstia, baseado numa "ética da sobrevivência", entendida como o uso do engenho e da memória para transformar a necessidade em resistência cultural, em que o resgate das raízes visuais torna-se um ato de resistência contra o esquecimento imposto pela contemporaneidade.
"La Chantin" não é apenas uma reflexão sobre a casa enquanto abrigo físico, mas também sobre um espaço afetivo e político. A abstração surge aqui como uma ferramenta crítica para pensar o território e as formas de habitar o mundo contemporâneo. Merel propõe-nos uma reflexão urgente: num mundo marcado por fluxos migratórios e incertezas, como reconstruímos o nosso lar a partir do zero?
A Kunsthalle Lissabon é apoiada pela República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto / Direção-Geral das Artes e pela Vasco Collection.
Sobre Cisco Merel
Cisco Merel (n. 1981, Cidade do Panamá, Panamá) vive e trabalha no Panamá. A sua prática artística utiliza a abstração como meio para abordar questões relacionadas com a arquitetura, os contrastes sociais e a arte popular, explorando as origens dos sistemas construtivos e socioculturais no contexto contemporâneo. Trabalha com fotografia, pintura, escultura e instalação, desenvolvendo, em cada projeto, um processo de investigação visual profundamente ligado ao território e à memória. Durante mais de uma década colaborou estreitamente com o ateliê de Carlos Cruz-Diez. O seu trabalho foi apresentado em exposições individuais e coletivas em instituições e espaços internacionais, incluindo o Museu de Arte Contemporânea de Panamá, a Galeria Zielinsky (São Paulo e Barcelona), a Bienal de Havana, a Americas Society (Nova Iorque) e o Centro Cultural de Espanha no Panamá. Foi um dos artistas selecionados para o primeiro pavilhão do Panamá na Bienal de Veneza em 2024.