Kunsthalle Lissabon

June Crespo: MÁS GRAVES

A Kunsthalle Lissabon tem o prazer de apresentar “MÁS GRAVES”, uma exposição individual de June Crespo (Pamplona, 1982). Crespo tem vindo a desenvolver uma prática escultórica e instalativa que investiga a relação entre corpo, matéria e espaço arquitetónico, criando uma tensão entre os limites de escala, peso e presença física. O seu trabalho tem alcançado forte projeção internacional, posicionando-a como uma das figuras mais relevantes da arte contemporânea espanhola e levando-a a apresentar exposições individuais em instituições como a Fondazione Sandretto Re Rebaudengo, em Turim, a Secession, em Viena, o Guggenheim Museum Bilbao, o Le Crédac, em Paris, e o Centro de Arte Dos de Mayo (CA2M), em Madrid.

O título da exposição,“MÁS GRAVES”, opera num jogo conceptual e linguístico que cruza a física com a acústica. Por um lado, evoca diretamente a ideia de gravidade, peso e densidade material, refletindo o esforço físico e a sustentação das peças no espaço. Por outro lado, remete aos sons graves, às frequências baixas e profundas que preenchem o ambiente. Ao fundir o peso corpóreo com a vibração intangível do som, Crespo propõe uma leitura expandida da matéria, sugerindo que aquilo que é denso e pesado também ressoa e emite uma frequência própria.

Para este projeto, concebido especificamente para o espaço da Kunsthalle Lissabon, Crespo desenvolveu uma escultura de grandes dimensões que toma a arquitetura do espaço expositivo, localizado numa cave, como ponto de partida e matéria ativa do trabalho. As paredes deixam de funcionar como mero suporte para as obras, assumindo-se como superfícies de apoio, contenção e fricção, integradas no próprio processo escultórico. A intervenção da artista articula-se sobretudo a partir da parede principal, com 12 metros de comprimento, por meio do uso de materiais industriais, como condutas de ventilação e lonas de veículos de transporte pesados.

Por meio de processos de corte, montagem e recomposição, a escultura configura estruturas que se equilibram entre tensão e distensão, entre o que se revela e o que permanece oculto. As lonas, marcadas pelo uso e por uma forte presença sensorial, apresentam perfurações que convidam o olhar a aceder ao interior das condutas, criando percursos que se desenvolvem entre o interior e o exterior. Estes sistemas de circulação estabelecem relações entre o corpo humano, a escala mecânica e os sistemas próprios da arquitetura, transformando a Kunsthalle Lissabon num sistema vivo.

A condição subterrânea do espaço, com a sua escala particular, densidade e atmosfera íntima, é ativada como um corpo adicional que acompanha a instalação escultórica. Esta envolvência estende-se à dimensão sonora através de hyle, uma peça desenvolvida por Estanis Comella em colaboração com June Crespo, cuja presença intermitente intensifica a perceção espacial e corporal do ambiente. A obra tem como ponto de partida uma gravação realizada no interior de uma tubagem que atravessa verticalmente o edifício do ateliê da artista, do telhado à cave, inspirando-se na qualidade acústica percetível nessa conduta. Emitido a partir da parede oposta, o som confronta frontalmente a intervenção escultórica; em simultâneo, tirando partido das perfurações na parede, é direcionado para áreas ocultas, com a fonte sonora voltada para a arrecadação, num desejo de "falar" diretamente com o edifício da KL e de ativar os seus espaços invisíveis para o público. Esta camada acústica transforma profundamente a perceção da escultura: por momentos, ambas as dimensões fundem-se, fazendo com que a própria matéria pareça respirar ou cantar. A exposição propõe, assim, uma experiência imersiva que dissolve as fronteiras entre o orgânico e o industrial, entre o corpo e a construção, e interroga as formas como habitamos e somos moldados pelos espaços que nos envolvem.

A Kunsthalle Lissabon é apoiada pela República Portuguesa – Cultura, Juventude e Desporto / Direção-Geral das Artes e pela Vasco Collection. “MÁS GRAVES” conta com o apoio de Acción Cultural Española.

Sobre June Crespo

June Crespo (n. 1982, Pamplona, Espanha) vive e trabalha em Bilbau. A sua prática escultórica investiga a relação entre o corpo, a matéria e o espaço arquitetónico, explorando as tensões entre as escalas, o peso e a presença física no contexto contemporâneo. Trabalha predominantemente com escultura e instalação, desenvolvendo processos de corte, montagem e recomposição que resultam numa investigação visual e espacial profundamente ligada à perceção corporal e à crueza dos materiais. Em 2022, participou na 59.ª Bienal de Veneza, na exposição central "The Milk of Dreams". O seu trabalho tem sido amplamente apresentado em exposições individuais e coletivas em instituições internacionais de referência, incluindo o Museu Guggenheim Bilbao, a Secession (Viena), o Centro de Arte Dos de Mayo / CA2M (Madrid), o Le Crèdac (Ivry-sur-Seine), a Kunsthalle Freeport (Porto), a Fondazione Sandretto Re Rebaudengo (Turim) e o Jeu de Paume (Paris).

Sobre Estanis Comella

A prática artística de Estanis Comella (Lleida, 1985) combina música, imagem e performance, explorando estes meios pela sua capacidade de criar atmosferas e de expandir a nossa perceção do espaço. Durante os seus anos de formação em Bilbau, participou na cena da improvisação livre, começando a explorar a performance ao vivo como geradora de situações e de arquiteturas. O som, a voz e o corpo tornam-se instrumentos que alteram a profundidade de um lugar e ativam condições de presença partilhada. Exibiu-se/atuou e colaborou com, entre outros, fluent (Santander), Fundação Serralves (Porto), Bulegoa z/b (Bilbau), Fundació Miró (Barcelona), Tabakalera (Donostia), Artium (Vitoria-Gasteiz), Carreras Múgica (Bilbau), CentroCentro (Madrid), La Panera (Lleida), La Capella (Barcelona), Azkuna Zentroa (Bilbau), La Casa Encendida (Madrid) e MNCARS (Madrid).