Saodat Ismailova: As We Fade
A Kunsthalle Lissabon tem o prazer de apresentar “As We Fade”, uma exposição individual da cineasta e artista visual uzbeque Saodat Ismailova. Esta exposição apresenta-se como uma instalação cinematográfica de dois canais, convidando ao envolvimento com a complexa história dos rituais sagrados, imposições políticas e transformações culturais da montanha Sulaiman-Too. Uma narrativa cativante e instigante que levanta questões sobre como o poder estatal, as ruturas históricas e o passar do tempo alteram os locais sagrados, questionando o que é lembrado ou apagado e o que resiste ao esquecimento.
No filme As We Fade, Ismailova traça a complexa história da montanha Sulaiman-Too, o mais antigo local de peregrinação da Ásia Central, cujo nome provém da lenda local segundo a qual o profeta Sulaiman ali teria descansado. Erguendo-se da região de Fergana, na cidade de Osh, no Quirguistão, a montanha tem servido como ponto focal para a vida espiritual da comunidade local e das pessoas que se deslocam até lá ao longo dos séculos. Evidências arqueológicas revelam que a montanha é venerada há mais de um milénio, com vestígios de culto pré-islâmico ainda visíveis em pinturas rupestres e santuários em cavernas. No período islâmico, mesquitas e rotas de peregrinação foram estabelecidas, tornando Osh um ponto importante ao longo da Rota da Seda. Durante a era soviética, os esforços das autoridades para proibir as práticas religiosas em Sulaiman-Too alteraram o seu caráter sagrado. A caverna mais venerada, Rusha-Unkur, foi convertida num restaurante modernista, juntamente com um miradouro panorâmico no seu cume. Posteriormente, foi reaproveitada como museu histórico e arqueológico nacional. Apesar dessas intervenções, a montanha manteve o seu significado espiritual, continuando a atrair pessoas em peregrinação e pesquisa, movidas pelos rituais de cura, tradições orais e crenças cosmológicas incorporadas nas suas pedras.
Sem narração ou legendas didáticas, Ismailova tece perfeitamente imagens de arquivo de rituais realizadas em diferentes partes da montanha, que remontam a 1929, apresentando cenas das primeiras expedições etnográficas soviéticas na montanha, incluindo a transformação dos espaços sagrados em infraestruturas seculares, juntamente com imagens observacionais contemporâneas do interior do museu e da paisagem circundante. O filme, com 19 minutos de duração, é projetado sobre vinte e quatro painéis de seda suspensos, produzidos em Margilan — um para cada frame por segundo —, fazendo com que as imagens e observações da paisagem se desloquem e esbatam à medida que o público percorre o espaço.
Juntamente com o filme, a exposição apresenta “The Mountain Our Bodies Emptied”, uma escultura que toma a forma de um molde de resina em escala reduzida baseado em digitalizações LiDAR (Detecção e Alcance de Luz), uma tecnologia que utiliza luz laser para criar modelos tridimensionais precisos de superfícies, da caverna Tamchi Tomar, a caverna mais ativa e venerada da montanha. Juntamente com o filme, a escultura amplia a reflexão de Ismailova sobre o significado enraizado em locais sagrados, onde a presença física e espiritual, as memórias coletivas e as imposições culturais deixam as suas marcas, mesmo quando os seus significados são contestados.
Apresentada em Lisboa, uma cidade moldada por ciclos coloniais, de comércio e renovação urbana, “As We Fade” reflete sobre como os locais de culto, reunião, comunidade e património são adaptados, substituídos, tomados ou recuperados ao longo do tempo. Neste contexto, o trabalho de Ismailova leva-nos a refletir: quando o significado original de um local é obscurecido, que evidências permanecem do seu passado espiritual e como o testemunho ativo pode ajudar a recuperar traços da memória coletiva? O que permanece e o que desaparece?
A exposição é gratuita e aberta ao público de quinta a sábado, das 15h às 19h. A Kunsthalle Lissabon é apoiada pela República Portuguesa / DGArtes, pela Câmara Municipal de Lisboa e pela Vasco Collectio
Sobre Saodat Ismailova
Saodat Ismailova (1981, Tashkent. Vive e trabalha entre Paris e Tashkent) é uma cineasta e artista visual do Uzbequistão da primeira geração pós-soviética da Ásia Central. Entrelaçando memórias, mitos, rituais e sonhos na tapeçaria da vida quotidiana, os seus filmes exploram a cultura historicamente complexa e multifacetada da sua região, no cruzamento de diferentes realidades, migrações e legados coloniais. Partindo da sua história pessoal, Ismailova investiga a dimensão coletiva da memória e a resistência global ao impacto no ambiente da atividade humana. Baseando-se frequentemente em histórias orais em que as mulheres são as protagonistas principais, e explorando sistemas de conhecimento suprimidos pela modernidade globalizada, as suas obras encapsulam esta consciência que paira entre mundos visíveis e invisíveis. A sua investigação abrange o conhecimento ancestral e a transformação da paisagem na região através de histórias mais recentes. Incorpora filmagens de arquivo e elementos têxteis de tradições vernaculares, que também permitem a continuidade de atividades artesanais que podem desaparecer em breve.
Formada no Instituto Estatal de Arte de Tashkent e no Le Fresnoy, Estúdio Nacional de Artes Contemporâneas na França, estabeleceu a sua vida artística entre Paris e Tashkent. Em 2021, iniciou o coletivo de investigação Davra na Ásia Central para desenvolver a cena artística local. Em 2022, recebeu o Prémio Eye Art & Film em Amesterdão. E, este ano, recebeu a medalha Art Basel Awards 2025 na categoria Artista Emergente.
Ismailova tem exibido internacionalmente com apresentações individuais, incluindo “Abyss Between Two Mountains”, Museu Amparo, Puebla, México; “Melted into the sun”, Batalha Centro de Cinema, Porto (2025); “A seed under our tongue”, Hangar Bicocca, Milão (2024); “Double Horizons”, Le Fresnoy, Centro Nacional de Artes Contemporâneas, Lille, França (2023); “18.000 Worlds” no Eye Film Museum, Amesterdão (2023). Participou em numerosas exposições coletivas, incluindo a Trienal de Artes da Ásia-Pacífico (2024), a Bienal de Artes de Xangai (2024), comissariada por Anton Vidokle; a Bienal de Arte Contemporânea de Diriyah, comissariada por Uta Meta Bauer (2024); a Bienal de Artes de Sharjah (2023), comissariada por Hoor al Qasimi; The Milk of Dreams comissariada por Cecilia Alemani, 59ª Bienal de Arte, Veneza (2022); documenta fifteen comissariada por Ruangrupa, Kassel (2022); e muitas outras. Em 2024, apresentou “Melted into the Sun” na exposição Nebula, encomendada pela Fondazione in between Art and Film durante a Bienal d Arte de Veneza. Em 2025, Ismailova apresentará também exposições individuais no Baltic Center for Contemporary Art e no STUK Art Center em Leuven.
As suas obras fazem parte das coleções do Museu Stedelijk, Amesterdão, do Centro Pompidou, Paris, TBA21, FRAC Córsega, Tate Modern, Museu de Arte de Almaty, Cazaquistão, entre outros.